ENTREVISTA SOBRE TEORIA U

Luciana Fernandes fala à Jornalista Mar Carvalho da Innsaei Conexões sobre Teoria U como uma jornada para despertar a maior capacidade de todo e qualquer ser humano.

INICIO DA ENTREVISTA:

Lu! É um prazer e uma honra aprender com você e acompanhar seu trabalho. Curiosa como estou sobre a Jornada de Setembro – e para proveito próprio e de muitas outras pessoas – , reuni algumas questões que podem estar na cabeça de quem acaba de entrar em contato com o universo da Teoria U. Vamos lá?

1. Qual foi seu primeiro contato com a Teoria U? Quando isso aconteceu? Foi, como no meu caso, amor à primeira vista?

O meu primeiro contato com a Teoria U se deu no ano passado em um grupo facilitado pelo professor Wilson Nobre da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Em coletivo, procuramos aplicar a metodologia U ao sistema de saúde. Queríamos saber como colaborar com esse sistema tão sofrido, queríamos trazer a ele uma abordagem mais humana.
Sim, foi amor à primeira vista – sem sombra de dúvida. Foi um divisor de águas, uma experiência que mudou a minha vida.
Também sou da área da saúde e, em determinado momento da minha biografia, eu havia me afastado desse universo em busca de algo mais salutar às pessoas. Com a Teoria U, percebi que a solução não é essa. Foi a primeira vez em que consegui olhar para o sistema de saúde e perceber o quanto eu estava integrada a ele, o quanto, mesmo sem saber, eu estava colaborando para que ele se mantivesse doente e defasado. A não ação era uma forma de agir.
Se eu estava fazendo isso individualmente, eu poderia fazer diferente e ainda me unir a outros com objetivos comuns, e essa percepção foi enriquecedora.
Senti que foi o meu eu do futuro que me levou a estudar farmácia e bioquímica. Foi meu eu do futuro que me colocou trabalhando dentro de hospitais e perto da indústria farmacêutica. Foi meu eu que me conduziu a estes cenários para que eu pudesse encará-los hoje através de outro prisma.
Há uma coerência maior em tudo!
Acredito que, com mais compaixão e com as ferramentas certas – e a metodologia U certamente é uma delas –, somos ilimitados.

2. Como era participar de Jornadas U lab antes de conduzi-las? Onde você vivenciou tudo isso?

Era uma delícia! Posso dizer que foi a melhor experiência pela qual já passei em toda a minha vida.
Participar de uma Jornada é penetrar nossas estruturas, é acessar a nossa capacidade de cocriar. Minhas vivências aconteceram com o grupo do professor Wilson, que é de uma delicadeza e de uma profundidade impressionantes.
Eu já vinha há muito tempo percorrendo um caminho pessoal de aprimoramento. Penso que, quando nascemos, sofremos imposições culturais variadas de acordo com nosso gênero, nossa sexualidade, nosso estrato social, nossa profissão, onde moramos, onde estudamos. São véus que nos cobrem, e o desenvolvimento humano seria justamente retirar os véus que nos envolvem em busca de nossa própria verdade.
Consegui entender meu passado, minha história e meu compromisso comigo mesma quando fiz a Jornada U. Até minha relação com a antroposofia passou a se validar.
Posteriormente, eu me juntei ao grupo da FGV para fazer o curso com o Otto (Otto Scharmer, criador da metodologia) pelo edX (plataforma mundial de educação).

3. Facilitar as Jornadas é, também, uma forma de exercer o seu próprio potencial?

É interessante essa sua pergunta! Porque, quando você participa de uma Jornada U, existe um facilitador, mas ali, de certa forma, você se conduz. Você é conduzido pela sua maior capacidade futura.
O mais fascinante em ser um facilitador de Jornadas é ver brotar diante de si essa potencialidade do outro; é vê-la aparecer durante o processo – e ela aparece à medida que o participante consegue acessar o seu eu maior.
Em contrapartida, para que eu consiga ajudar a promover a abertura de espaço dos indivíduos do grupo, eu também preciso acessar meu eu maior. Só assim a Jornada tem sucesso e é válida para todos.
Portanto, os dois lados são riquíssimos: tanto participar quanto conduzir os integrantes.

4. De suspender a incorporar, quantos e quais são os passos atravessados quando nos dispomos a encarar o U?

Ah! Eu achei o máximo o uso da palavra encarar! A humanidade está frente a um abismo, e o negócio é tão grande que não dá para saltar. Então, muito melhor é assumir a nobre tarefa de encarar esse U (risos).
Considero os três primeiros passos os mais importantes, pois estão relacionados a três grandes inimigos com os quais temos de lidar: calar a voz do julgamento, calar a voz da desconfiança – ou do cinismo – e calar a voz do medo. Eles constituem a descida ao fundo do U.
A suspensão, primeiro passo, é algo que traz a mim a sensação da meditação. Você fica no nada, e isso é assustador mesmo.
A segunda parte do U é muito especial porque, no lugar de agir como sempre fazíamos, recuperamos tudo que estamos vendo como modelos do passado e os desviamos para dentro. Começamos, assim, a sentir o mundo de outra forma. Não dá nem para explicar, tem que ser experimentado! Este passo chama-se redirecionar.
Após isso, vem o grande desafio de deixar ir, e chegamos ao fundo do U – o lugar onde reside nossa maior capacidade.
No processo de subida, estão o deixar vir, o decretar a lei e o incorporar. Aqui, passamos a viver algo novo e a dar vestes a nosso eu maior.

5. Como é essa história de cabeça aberta, coração aberto e vontade aberta?

Esses três são o afinar da nossa alma. Afinamos nosso instrumento quando começamos a trabalhar nessas esferas.
A mente é como um paraquedas: ela só funciona quando está aberta; e o processo de abertura é o acolhimento de novas capacidades. Neste caso, podemos nos servir de nossa inteligência intelectual.
O coração aberto é um coração empático, onde reside nossa inteligência emocional. E a vontade aberta deixa emergir nossa inteligência espiritual, que nos permite acessar nosso verdadeiro objetivo, nosso verdadeiro propósito.

6. Você pode falar um pouco a respeito do criador de toda essa loucura maravilhosa, o Otto Scharmer? Qual é a relação entre a Antroposofia e a metodologia que ele criou?

O Otto é alguém que, em sua infância, consegue ver o seu eu do futuro. Ele é alemão, filho de um agricultor biodinâmico – a agricultura biodinâmica é o modelo de relação com a terra que Rudolf Steiner, criador da antroposofia, deixa para nós – e um ex-aluno Waldorf.
Caminhou por diversas filosofias, inspirou-se em muitas mentes brilhantes. Ele entra no MIT (Massachusetts Institute of Technology) desenvolvendo um trabalho sobre o livro Filosofia da Liberdade, obra transformadora de Steiner.
Eu só tenho a agradecer a Otto por suas criações e por disseminá-las de uma forma que todos as possam acessar.

7. Para quem já está se coçando para se inscrever no grupo de setembro:

O que é uma Jornada U Lab? Como ela funciona?
O ponto de partida para quem quer começar uma Jornada U lab é ter uma pergunta. É preciso uma pergunta para que mergulhemos dentro de nós mesmos em busca de novos modelos.
Quando entramos para valer na empreitada “abrir mente, abrir coração e abrir vontade”, quando nossas capacidades intrínsecas são percebidas – os seres humanos são dotados de muitas capacidades, não são poucas, veja bem, são muitas –, encontramos o lugar no qual vigora a verdadeira intenção do eu maior.
Assim que chegamos a esse lugar, somos invadidos por tanta energia, tanta força vital! Eu não sei o que sé, se é magia… (risos). É teoria U.
Em seguida, cristalizamos essa intenção, esse impulso que vive dentro de cada uma de nossas células – e vamos para o mundo. Temos propósitos incorporados.
A própria Jornada parece resgatar a humanidade de cada um dos participantes. É algo avassalador.

8. Quem entra na Jornada sem um objetivo claro em mente pode aproveitar os encontros para encontrar inspiração?

Para quem quer começar a Jornada sem um objetivo claro, a primeira etapa do U – abrir mente, abrir coração e abrir vontade – atua de forma a catalisar o encontro de uma intenção.
É muito possível encontrar inspiração durante a Jornada desde que você se entregue ao processo.

9. Adoraria saber mais sobre seus sonhos envolvendo o trabalho com a Teoria U e o sistema de saúde. Conta para a gente?

Ai, falar dos meus sonhos!
A primeira coisa que vi foi o sistema sofrendo. O índice de suicídios é altíssimo entre os profissionais de saúde, assim como o é o índice de usuários de drogas. Essas pessoas estão doentes; estão pedindo ajuda.
Tenho um entendimento: da atendente à faxineira, é curador qualquer um que trabalha inserido na área da saúde. E meu sonho passa por aí: todos os integrantes desse sistema empoderam-se, percebem-se curadores e reconhecem o brilho de sua potencialidade.
Podemos curar até com um sorriso!

10. A revolução que pode nos conduzir a uma sociedade mais fraterna já começou? Como entra a Teoria U no meio disso tudo?

Não tenho dúvidas: a revolução começou, e a Teoria U é uma ferramenta muito segura para que nos atentemos a isso. Diante da aurora de uma sociedade mais fraterna, a metodologia nos convida a nos colocarmos como suas engrenagens.
Perceba: o mundo do passado desaba a olhos vistos. São crises políticas, econômicas, educacionais. Ele não pode prosseguir, pois opera no medo. É um aparelho defasado.
As crianças que nascem nesta década já trazem em si o chamado dos sistemas futuros. Não serão cocriadoras dos enganos que vivemos hoje.

11. Para quem já quiser se jogar no seu universo e, como você, disseminar a Teoria U: existe algum curso que capacita um facilitador de Jornadas? Instituições profissionalizantes no Brasil ou no mundo? Ou o caminho é participar de Jornadas pessoais e, a partir disso, trazer sua experiência para outras pessoas?

Para quem quer entrar nesse universo, minha dica é: faça o curso do edX. Ele está em inglês, e ainda há pouco material traduzido para nossa língua. Também devore os livros disponíveis.
Fazer o curso, porém, não te tornará um facilitador da Teoria U. A vida assume esse papel. É o próprio laboratório dessa formação.
Quem faz a Jornada pode, claro, tornar-se um facilitador, mas é sua própria atuação com os conhecimentos adquiridos que definirá esse acontecimento. Quando você vai da suspensão à incorporação em vários aspectos da sua vida e quando você se entrega de fato em sua Jornada pessoal, pode convidar outras pessoas a fazer o mesmo.

12. Quais meios profissionais têm se mostrados mais receptivos ao trabalho através da metodologia U lab? E quais têm se mostrado mais resistentes?

Pela minha experiência, os profissionais de áreas em que inovar é algo bem-vindo têm mostrado melhor recepção. O pessoal da comunicação e da criatividade está bastante aberto.
Os mais resistentes são os profissionais de sistemas que têm dificuldade em abandonar o modelo social antigo, pois ainda estão presos à ilusão de um ganha-ganha que não acontece. Posso citar como exemplo o sistema econômico.
São lugares mais complexos para entrarmos com a Teoria U, mas é bom lembrar que ali residem seres humanos – e todos nós possuímos nossa maior capacidade futura. Quando entramos com uma metodologia que dá espaço de expressão a essa capacidade, não há sistema que não possa ser transformado.
Enfim, eu acredito em pessoas. É nelas que eu acredito.

13. A Teoria U já é bem conhecida em nosso país? Alguma região desponta como maior multiplicadora da metodologia?

A Teoria U ainda é pouco conhecida no Brasil. São Paulo desponta como centro disseminador e, para dizer a verdade, não sei como anda a situação em outras partes do país.
Mas vou te contar uma coisa: eu vou descobrir. Mais do que descobrir, eu vou levar! Temos muito a fazer; há bastante trabalho pela frente.
Aqui, a Teoria U vai chegar e fazer a diferença.

14. U lab ou Teoria U: você tem alguma preferência ao falar?

Você é danada com as suas perguntas, ein! Que interessante.
Teoria U me soa forte; U lab me soa como uma jornada em que o amor entra.

15. Um recado seu para quem está assistindo ao vídeo!

Pessoal, vamos participar da Jornada! Vamos abrir mente, coração e vontade, vamos cristalizar nossa intenção, vamos prototipar, vamos cocriar, vamos fazer e acontecer nesse mundão! Ele está aí, e espera por cada um de nós.
Eu agradeço a todos os leitores e agradeço a você, Mar, que me convidou para essa entrevista fazendo perguntas incríveis. Foi lindo; estou me sentindo muito feliz e realizada.
Que sensação gostosa é essa de poder trazer tanta informação. O U é grande, mas é nosso!
Chega em breve nossa Jornada – e eu não tenho dúvidas de que ela é, de fato, uma jornada para a vida.

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